-se para casar pela
terceira vez, e ouviam-se sombrios sussurros sobre as mortes
das duas primeiras esposas. Dizia-se que sua fortaleza era um
lugar sombrio onde criados desapareciam para nunca mais
serem vistos, e até os cães tinham medo de entrar no salão. E
tinha havido uma irmã que morrera jovem em estranhas
circunstâncias, e o fogo que desfigurara o irmão, e o acidente
de caça que matara o pai. Gregor herdara a fortaleza, o ouro e
as propriedades da família. O irmão mais novo, Sandor,
partira no mesmo dia para servir os Lannister como cavaleiro
juramentado, e dizia-se que nunca mais regressara, nem
mesmo para visita.
Quando o Cavaleiro das Flores fez sua entrada, um murmúrio
percorreu a multidão, e Ned ouviu o sussurro fervente de
Sansa:
- Ah, ele é tão lindo.
Sor Loras Tyrell era esbelto como um junco, vestido numa
fabulosa armadura de prata polida até cegar, gravada com
uma filigrana de sinuosas trepadeiras negras e minúsculos
miosótis azuis. A plebe percebeu, no mesmo instante que Ned,
que o azul das flores provinha de safiras; um suspiro escapou
de um milhar de gargantas. Dos ombros do rapaz pendia o
manto pesado. Era tecido de miosótis, miosótis verdadeiros,
centenas de flores frescas entrelaçadas numa pesada capa de
lã.
Seu corcel era tão esguio como o cavaleiro, uma bela égua
cinzenta, feita para a velocidade. O enorme garanhão de Sor
Gregor relinchou ao captar seu cheiro. O rapaz de Jardim de
Cima fez qualquer coisa com as pernas e o cavalo curveteou
de lado, ágil como um dançarino. Sansa agarrou o braço de
Ned.
- Pai, não deixe que Sor Gregor lhe faça mal - ela pediu. Ned
viu que ela trazia a rosa que Sor Loras lhe dera no dia
anterior. Jory também lhe contara aquilo.
- Aquelas são lanças de torneio - disse à filha. - São feitas para
que se estilhacem com o impacto, para que ninguém se fira -
mas lembrou-se do rapaz morto na carroça, com seu manto de
crescentes, e as palavras arranharam-lhe a garganta.
Sor Gregor estava com problemas em controlar o cavalo. O
garanhão berrava e batia com as patas no chão, abanando a
cabeça. A Montanha espetou-lhe ferozmente os calcanhares
envolvidos em armadura. O cavalo empinou-se e quase o
derrubou.
O Cavaleiro das Flores saudou o rei, dirigiu-se à extremidade
mais distante da arena e abaixou a lança, pronto. Sor Gregor
trouxe seu animal até a linha, lutando com as rédeas. E de
súbito começou. O garanhão da Montanha rompeu num
galope duro, atirando-se furiosamente à frente, ao passo que o
passo da égua era suave como o deslizar da seda. Sor Gregor
pôs o escudo em posição e equilibrou a lança com dificuldade,
enquanto continuava a lutar para manter a fogosa montaria
numa linha reta e, de repente, Loras Tyrell estava sobre ele,
colocando a ponta da lança precisamente lá, e num piscar de
olho a Montanha estava caindo. Era tão imenso que levou o
cavalo consigo, num emaranhado de aço e carne.
Ned ouviu aplausos, aclamações, assobios, suspiros chocados,
murmúrios excitados, e sobretudo as ásperas e roufenhas
gargalhadas de Cão de Caça. O Cavaleiro das Flores puxou as
rédeas no fim da arena. Sua lança nem sequer estava partida.
As safiras cintilaram ao sol quando ergueu o visor, sorrindo.
Os plebeus pareciam ter enlouquecido por ele.
No meio do campo, Sor Gregor Clegane desembaraçou-se e
pôs-se de pé, fervendo de raiva. Arrancou o elmo e esmagou-o
contra o chão. Tinha o rosto escuro de fúria, e os cabelos
caíam-lhe nos olhos.
- Minha espada - gritou para o escudeiro, e o rapaz correu
para ele. Nessa altura o garanhão já estava em pé também.
Gregor Clegane matou o cavalo com um único golpe, de
tamanha violência que quase decepou o pescoço do animal.
As aclamações transformaram-se em guinchos num piscar de
olhos.
O garanhão caiu de joelhos, berrando enquanto morria. Mas
então Gregor já atravessava a arena a passos largos,
dirigindo-se para Sor Loras Tyrell, de espada ensanguentada
em punho.
- Pare-o! - gritou Ned, mas suas palavras perderam-se no
burburinho. Todos estavam também gritando, e Sansa
chorava.
Tudo aconteceu num ápice, O Cavaleiro das Flores gritava
pela espada no momento em que Sor Gregor empurrou para o
lado seu escudeiro e tentou agarrar as rédeas do cavalo. A
égua cheirou sangue e empinou-se. Loras Tyrell mal se
manteve montado. Sor Gregor brandiu a espada, um violento
golpe a duas mãos que atingiu o rapaz no peito e o derrubou
da sela. O corcel fugiu em pânico, enquanto Sor Loras jazia
atordoado no chão. Mas, quando Gregor ergueu a espada para
o golpe fatal, uma voz áspera advertiu: "Deixe-o em paz", e
uma mão revestida de aço atirou-o para longe do rapaz.
A Montanha rodopiou numa fúria sem palavras, brandindo a
espada num arco mortífero com toda sua maciça força posta
no golpe, mas Cão de Caça aparou o golpe e contra-atacou, e
durante aquilo que pareceu uma eternidade, os dois irmãos
trocaram golpes, enquanto um entontecido Loras Tyrell era
ajudado a pôr-se em segurança. Três vezes Ned viu Sor
Gregor lançar violentos golpes no elmo da cabeça de Cão, 